Entrevistas - Escrito por Redação em agosto 18, 2007 13:04 - 1 Comentário Mande a matéria para alguém Mande a matéria para alguém

2º ano de Jornalismo
Em uma coletiva concedida aos alunos do 2.º ano de Jornalismo do Unasp, o doutor e teólogo Reinaldo Siqueira abordou os conflitos entre judeus e muçulmanos. Ele descreveu o período que viveu em Israel e comentou sobre o trabalho desenvolvido na Sinagoga Judaico-Adventista de São Paulo, projeto [...]

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2º ano de Jornalismo

Em uma coletiva concedida aos alunos do 2.º ano de Jornalismo do Unasp, o doutor e teólogo Reinaldo Siqueira abordou os conflitos entre judeus e muçulmanos. Ele descreveu o período que viveu em Israel e comentou sobre o trabalho desenvolvido na Sinagoga Judaico-Adventista de São Paulo, projeto que concretiza a adaptação da Igreja Adventista do Sétimo Dia à cultura de determinados grupos étnicos.

Siqueira é doutor em Línguas Bíblicas pela Universidade Andrews, Estados Unidos, e cursa pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Ele também é conhecido como idealizador e editor da revista eletrônica Kerygma. Atualmente leciona no curso de Teologia do Unasp e lidera o projeto das sinagogas judaico-adventistas em São Paulo.

Antes de decidir cursar Teologia, o senhor queria ser físico. Como aconteceu esta mudança?

Reinaldo Siqueira -
Desde criança, quando me perguntavam o que eu seria quando crescesse, eu respondia que seria físico. No entanto, quase ao término do segundo grau, fui passar as férias na casa de uma tia, adventista do sétimo dia, no Espírito Santo. Durante esta viagem, estudei a Bíblia com minha avó e esta tia, e me tornei um adventista. Comecei a freqüentar a igreja de Belo Horizonte, onde eu então morava, e me envolvi com um grupo de jovens muito ativos e participantes. Optei por me batizar e, três meses depois, decidi cursar Teologia. Tomei a decisão em julho de 1979 e, em dezembro, já estava na faculdade.

De que maneira sua família reagiu a esta decisão?

Reinaldo - Para a minha família, a maior dificuldade foi aceitar a troca de curso para Teologia, já que foram muitas mudanças ao mesmo tempo: conheci a Igreja em janeiro, me batizei em maio, três meses depois decidi cursar Teologia, e em dezembro já estava no campus da faculdade. Nenhum deles se opôs à minha conversão ao adventismo, mas se preocuparam com o futuro da minha escolha profissional. Minha família funciona como um clã e, como fui contra o conselho deles, não me apoiaram em nada.

Como surgiu a oportunidade de iniciar seus estudos no exterior?

Reinaldo -
Eu sempre gostei muito de francês, e tinha vontade de conhecer a França. Então conheci a Débora, hoje minha esposa, que tinha o mesmo desejo. Começamos a namorar e decidimos que nos casaríamos e iríamos para a França. Então, fomos vender livros para conseguir dinheiro para o casamento, a viagem e um ano de estudos. Após seis meses nos casamos, fato que julgou como minha segunda loucura, já que eu tinha apenas 19 anos. Então, dois dias após a cerimônia, em fevereiro de 1882, partimos para a França e só voltamos para o Brasil em 1996, totalizando 15 anos fora do País.

O senhor imaginou que ficaria tanto tempo morando em Israel?

Reinaldo -
Não, pois planejamos passar um ano no país. Queríamos terminar nossos estudos na França. Mas nesse período, um colégio na Espanha precisou de um professor, e fui chamado para assumir o papel durante um ano. Como esta mudança foi repentina, planejamos ficar em Israel durante um ano, em seguida passar o mesmo período nos Estados Unidos, e depois voltar para o Brasil.

O que o senhor pode nos dizer sobre o tempo em que morou num Kibutz, em Israel?

Reinaldo -
Eu e a Débora, minha esposa, havíamos terminado nossos estudos na França, além de eu ter concluído três anos de hebraico em Genebra. Então, planejamos a ida para Israel com os mínimos gastos possíveis. Através do consulado israelense consegui indicação ao Kibutz, uma antiga cooperativa agrícola criada por emigrantes judeus de origem européia, mas de tendência socialista. Nesta comunidade, tudo pertencia a todos. Os kibutzim aceitavam os chamados voluntários de ajuda durante um período de tempo, e forneciam alojamento, comida, e verba para os gastos principais - produtos higiênicos, por exemplo. Nesse contexto nós trabalhávamos e praticávamos o hebraico. Foi muito econômico, pois só gastamos a passagem de ida e volta, e compramos alguns presentes em passeios. Fizemos amizade com muita gente, os membros do kibutz nos receberam muito bem, e tivemos um ano muito produtivo.

Durante o período em que esteve em Israel, o senhor presenciou alguma guerra local?

Reinaldo -
Aquele período, de 1986 a 1987, era mais pacífico, por isso não houve nenhum conflito armado. Quando saímos dali, em 1988, foi comemorada a reconquista de Jerusalém, evento de desencadeou uma tensão maior. Hoje, o cuidado deve ser maior, pois é mais fácil encontrar extremistas. É evidente que nesses últimos anos têm acontecido mais conflitos do que quando eu morei lá, aquele era o final de período de estabilidade. Nós ocidentais temos que nos esforçar para entender a situação em Israel, pois não são conflitos tão freqüentes como pensamos. Como nação, Israel é mais tranqüila que o Brasil. Em proporção, as chances de morte são maiores em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Os israelenses têm medo de vir para o Brasil por causa da violência.

Qual é a realidade dos estrangeiros em Israel? Existem grupos sociais que sofrem mais preconceito do que outros?

Reinaldo -
Na nossa época, grande parte dos estrangeiros que estava em Israel eram pessoas que, como nós, eram voluntários no Kibutz ou turistas. Devido aos conflitos, boa parte dos palestinos que trabalhavam no país perdeu o emprego, o que cedeu oportunidades de trabalho para estrangeiros, em substituição aos palestinos. Hoje existem muitos filipinos e africanos trabalhando em Israel, mesmo porque o salário é melhor, e está bem próximo aos países do primeiro mundo. Assim como nos Estados Unidos e na Europa, muitos estrangeiros estão ilegais, o que ocasiona muitos casos de deportação. Em relação ao preconceito, o povo judeu tem muitas origens. Explorando o país, encontra-se judeu europeu – russo, alemão, italiano, espanhol - judeu indiano, etíope, africano, entre outras origens. Portanto, constituem uma raça multi-cultural e multi-racial, sem muitos preconceitos. Evidentemente, existem grupos preconceituosos, mas são muito mais difíceis de achar do que em culturas como a americana, por exemplo.

No Brasil afirma-se que não existe preconceito religioso, e nenhum tipo de bloqueio a religiões. Isso é verdade? Qual a tendência do preconceito e da liberdade religiosa no mundo?

Reinaldo -
Existem dois aspectos a serem analisados. Há o lado legal, baseado na constituição do País, e o lado cultural, ou seja, a aceitação da sociedade. Em questões religiosas, o Brasil está em uma situação muito melhor que vários países europeus. Por outro lado, o Ministério da Educação (MEC) só se interessa em saber se a escola a ser instituída possui qualidade acadêmica. Quanto ao lado cultural, o Brasil também está em vantagem, pois, devido à mistura de raças, o preconceito não é tão forte. Nos Estados Unidos, as leis tentam proteger o indivíduo e diminuir o problema da segregação racial, mas a cultura da população não aceita as diferenças.

Como surgiu o projeto das congregações judaico-adventistas no Brasil?

Reinaldo -
No final dos anos 80, a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) lançou um programa de trabalho missionário chamado “Missão Global”. O projeto visava solucionar o problema de barreiras culturais enfrentadas pelos adventistas em alguns países. Levávamos a mensagem da igreja, mas conservávamos também a cultura daquele povo. A Sinagoga Adventista é fruto disto. Em 1988, a sede da IASD incentivou os países que possuem presença judaica, a terem iniciativas semelhantes. O projeto entrou em vigor em São Paulo e, por já ter vivido em Israel, fui convidado a dirigi-lo.

Esse projeto sofreu algum preconceito entre os adventistas? Como a Igreja encara as diferenças?

Reinaldo -
O trabalho com os judeus tem sofrido certa resistência. Alguns adventistas pensam que os que freqüentam o templo judaico-adventista são os que abandonaram a fé. Muitos não entendem que esse projeto é iniciativa da Sede mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

O senhor é coordenador dessas congregações no Brasil, no entanto não é judeu. Houve alguma resistência dos judeus que freqüentam essas reuniões?

Reinaldo -
Alguns possuem um pouco de receio. Mas devido ao interesse e respeito à cultura judaica, a maioria não apresenta qualquer resistência. No Brasil a situação é melhor do que em outros países. Muitos judeus estavam envolvidos na viagem do descobrimento. A carta estelar foi escrita por um judeu, os financiadores da navegação eram judeus, Cabral era casado com uma judia, Pero Vaz de Caminha era judeu. Devido a essa influência na história do Brasil, muitos de nós temos pelo menos “alguma gotinha” de sangue judeu.

No início do trabalho com as sinagogas judaico-adventistas, o senhor recebeu alguma crítica dos rabinos das sinagogas tradicionais devido ao viés adventista?

Reinaldo -
Sim. No jornal judaico do Rio de janeiro, por exemplo, saiu uma coluna falando dos trabalhos “adventistas”. Sobretudo estavam nos acusando por um erro que não foi nosso. Este é um dos problemas de se trabalhar em aberto. Como nós somos uma das únicas faces cristãs identificáveis, às vezes recebemos críticas por erros de outros evangélicos. É um risco que corremos em prol das vantagens. Uma dessas vantagens é criarmos simpatia com muitos não-adventistas que nos conhecem, e outra é trabalhar com a verdade abertamente.

Os conflitos entre Israel e Palestina se estendem por anos. Em algumas culturas a religião incentiva os ataques. Que papel as sinagogas desenvolvem em relação a esses conflitos?

Reinaldo -
Na sinagoga, a maior parte dos judeus são fundamentalistas, que representam no máximo 6%. Mas mesmo entre os fundamentalistas, as opiniões estão divididas. A maioria é apolítica. Muitos judeus fundamentalistas, quando vão visitar Israel, pedem permissão para o rei da Jordânia porque não reconhecem o Estado de Israel. Mas existem também judeus que são políticos. É uma situação muito complicada. Com a nossa perspectiva ocidental, pensamos que os conflitos são simplesmente resolvíveis. Mas eles não são. Lá existem povos com uma cultura secular, diferenças tribais, culturais e religiosas muito profundas.

Como os judeus brasileiros vêem esse conflito?

Reinaldo -
A maior parte dos judeus daqui do Brasil são fundamentalistas religiosos. A sociedade judaica brasileira é uma das mais integradas e secularizadas do mundo. Eles têm medo do lado fundamentalista árabe, porque ou você anda na cartilha de quem está no poder, ou você morre. Não existe liberdade de expressão.

Qual a diferença entre judeus adventistas e judeus messiânicos?

Reinaldo -
Geralmente os judeus messiânicos pertencem a igrejas evangélicas e não são judeus de nascimento. Mas dos que participam das nossas reuniões, a maioria são adventistas que têm ascendência judaica. Os demais são adventistas interessados no judaísmo e que desejam conhecer melhor o nosso trabalho.

O que o senhor trouxe da cultura judaica para seu lar, e como sua família lidou com as diferenças?

Reinaldo -
O judaísmo tem muitas semelhanças com o adventismo. Ambos não comem carne de porco, guardam o sábado, etc. Em casa, cantamos as músicas judaicas nos cultos. E logo na entrada existe uma pequena caixa onde estão guardadas algumas passagens bíblicas. Isto representa o respeito pela lei e pela Palavra de Deus. Além disso, todo dia eu recito uma bênção em hebraico aos meus filhos. Quando o meu filho mais velho estava nos Estados Unidos, eu costumava enviar a bênção por e-mail.

O senhor sempre desejou trabalhar com ênfase na área teórica, investindo em mestrado e doutorado, ou a princípio pensou no aspecto prático?

Reinaldo -
Os dois lados. Na época em que me converti, me envolvi com trabalho missionário juntamente com uns jovens da igreja. Aquele ano foi muito marcante em minha vida e me deu um rumo. Desenvolvi na área acadêmica, mas acho que todo adventista tem que ter um espírito de contato e trabalho missionário.

Como surgiram os temas para suas pesquisas no mestrado, doutorado e pós-doutorado?

Reinaldo -
Para o mestrado, queria pesquisar algo relacionado às profecias do livro de Daniel. Por influência de leituras, eu escolhi o tema da aliança na profecia de Daniel 9:27. No doutorado, pesquisei durante dois meses para sugerir sete possíveis temas para a tese, mas nenhum foi aceito. Finalmente o orientador mencionou que determinado assunto era relevante e demandava uma pesquisa mais profunda. Sugeri aquele tema, baseado no livro de Amós, e foi aceito. No curso de pós-doutorado, existe muita liberdade para estabelecer o tema da tese. Basta que seja interessante e útil. Decidi escrever sobre a maneira como os estrangeiros eram vistos pelos israelitas dos tempos bíblicos.

Um dos pré-requisitos do pós-doutorado na USP é ministrar aulas. Como a Igreja Adventista encara esse processo, já que se trata de uma universidade secular? Há algum viés missionário nas aulas ministradas?

Reinaldo -
O projeto de pós-doutorado está relacionado com o trabalho com os judeus. Como adventistas, nos acercarmos do meio acadêmico. É também uma maneira de abrir portas e nos tornarmos conhecidos. Do outro lado está o interesse do Unasp. Existe o lado missionário e o lado acadêmico.

Como o senhor usará sua tese de pós-doutorado no trabalho com os judeus?

Reinaldo - Na tese, comprovo que na perspectiva judaica dos tempos do Antigo Testamento, existia um grupo que era diferente do restante do mundo, embora não tivesse ascendência judaica. O status destas pessoas era maior do que de outros estrangeiros, porque elas seguiam as leis de Deus. A profecia de Isaías mostra que haveria um tempo em que muitos estrangeiros estariam tão próximos de Deus como os próprios judeus. Portanto, ao trabalhar com os judeus é possível mostrar que na própria visão deles, atualmente o único povo que cumpre as especificações da profecia de Isaías são os adventistas. Cria-se então um diálogo com os judeus e uma abertura ao evangelismo.

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1 Comentário

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Juliana Rodrigues da Silva
jul 1, 2008 15:27

É muito bom saber que está sendo feito esse trabalho missionário para apresentar a verdade, e agregar novamente em um só povo, o povo do Senhor.
Eu tenho um amigo que é Judeu messianico, e antes de saber desse trabalho que está sendo feito, eu já tinha no meu coração o desejo de ver, ou de poder fazer alguma coisa para Judeus e Adventista partilhassem da mesma fé, que é semelhante, não só eles, mas por estarem tão próximos de nós, anseio por velo junto a nós.

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