Especiais - Escrito por Cígredy Neves em outubro 22, 2007 5:54 - 0 Comentários
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Cores: A extinção esverdeou
Bandeira, lima, limão, esmeralda, abacate, oliva, musgo, escuro, aquamarine, floresta, turquesa, desbotado. Aleatoriamente essas palavras parecem não fazer sentido. Entretanto, quando associadas ao verde, percebe-se que todas elas são tonalidades dessa cor.
Na natureza, o verde está presente principalmente em folhagens. Isso acontece devido à presença de clorofila, pigmento natural que absorve a energia de luz [...]
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Bandeira, lima, limão, esmeralda, abacate, oliva, musgo, escuro, aquamarine, floresta, turquesa, desbotado. Aleatoriamente essas palavras parecem não fazer sentido. Entretanto, quando associadas ao verde, percebe-se que todas elas são tonalidades dessa cor.
Na natureza, o verde está presente principalmente em folhagens. Isso acontece devido à presença de clorofila, pigmento natural que absorve a energia de luz e transforma o dióxido de carbono em alimento para as plantas. Na realidade, a clorofila absorve apenas o vermelho e o azul e, por causa dessas absorções, a luz reflete o verde, que não serve para os vegetais.
O geofísico e consultor em Geoprocessamento, Rigoberto Lazaro Pietro Cainzos, da CMB Consultoria Ltda., explica o que produz as variantes naturais do verde no meio ambiente. Segundo ele, as diferentes tonalidades são determinadas pelo estado em que a vegetação se encontra. “Ou seja, diferentes variedades de plantas refletem diferentes tons de verdes, influenciados pelo estado delas: se está sadia, doente ou até estressada”, afirma.
Para o coordenador do curso de Engenharia Ambiental da Escola de Engenharia de Piracibaca, Alcindo Antoniássi, essa questão está ligada a diversos fatores como condições pluviométricas, chuvas, clima, solos e outros. As tonalidades se diferenciam também conforme a região em que estão localizadas.
Do verde ao marrom
E se a natureza não fosse assim? O que aconteceria ao homem se ela fosse branca, azul, vermelha ou de outra cor qualquer? O homem certamente se adaptaria, acredita Cainzos. Ele alega que, de certa forma, existem lugares no planeta em que a natureza é branca (pólos), azul (oceanos) e até vermelha (desertos).
O fato, porém, é que a maior parte da natureza é verde e essa cor é extremamente abundante no Brasil, ou pelo menos o era em décadas passadas. A coloração verde está distribuída nos mais diferentes tipos de vegetação: cerrado, caatinga, campos, mata atlântica, mata dos cocais, mata dos pinhais, floresta amazônica, pantanal e mangues. Para se ter uma idéia dessa dimensão, basta analisar os dados: a maioria dos 7 milhões de km2 da floresta amazônica é constituída por uma floresta de terra firme. E esse tipo de floresta se localiza na Amazônia brasileira.
Contudo, já não há mais tanta abundância de verde como na época da conquista do Brasil. Toda essa riqueza tem sido alvo de especuladores gananciosos que desmatam e destroem a biodiversidade. A doutora em Ciências Biológicas (Entomologia) e pesquisadora, Ana Lúcia Nunes, do Museu Paraense Emílio Goeldi, acredita que muitas pessoas ainda são ignorantes sobre o assunto do desmatamento e, às vezes, são iludidas por ambiciosos. “Elas são enganadas facilmente pela ganância das pessoas que estão [ilegalmente] envolvidas: madeireiros, grileiros, fazendeiros, todos os ‘eiros’ da vida”, assegura.
E assim, toda aquela infinidade de tons começa a desaparecer e algum dia – e não muito distante – poderão até entrar em extinção. A devastação é tanta que grandes áreas florestais agora não possuem mais a coloração esverdeada, e sim o marrom das terras secas e depredadas pela ação do homem. As florestas atlânticas, por exemplo, só possuem 5% de matas preservadas de sua extensão original.
Essa ação ilícita prejudica não somente o ser humano e as plantas, mas também os animais que vivem nas florestas. Um exemplo é o gafanhoto. A sua coloração geralmente varia conforme o seu habitat. Ana Lúcia, que trabalha com pesquisas em Zoologia (principalmente invertebrados) no Museu Paraense Emílio Goeldi, esclarece que o tom verde, sempre característica de muitas espécies, também varia. Eles podem ser verdes claros e até quase transparentes, como as “esperanças” ou verde mais escuro. Ela ensina que o gafanhoto tem uma variante de verde de acordo com a vegetação que explora, pois assim, ele pode se camuflar e conseguir passar despercebido pelos predadores. Porém, quando a floresta é devastada, o gafanhoto perde o seu alimento, pode ficar extinto e os seus predadores também terão problemas. E assim, a cadeia alimentar se desequilibra.
Desafios e medidas
O desmatamento é apenas um dos problemas enfrentados pelo Ibama. Conforme o diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Flávio Montiel, é comum encontrar problemas como garimpo ilegal e grilagem de terras públicas, que usa o desmatamento como uma forma de querer buscar a titulação daquela área de forma fraudulenta. Mas controlar a atividade madeireira ilegal tem sido a maior dificuldade para o governo. “E não aquelas que são legais, que trabalham com planos de manejo, aprovados seja pelo Ibama ou pelo órgão estadual, mas a atividade madeireira clandestina”, revela.
Diante desta realidade, o que pode ser feito para evitar que o verde das matas desapareça e como preservar as espécies ali existentes? O geógrafo e professor, Agostinho Carneiro Campos, da Universidade Católica de Goiás, orienta que primeiramente os pais devem mostrar aos filhos a importância do meio ambiente desde cedo. Em segundo lugar, de acordo com ele, é preciso desenvolver políticas públicas sérias. “Apesar de nós já termos evoluído bastante em nossa legislação ambiental, ou melhor, é a mais completa do planeta, falta ainda o seu cumprimento severo”, ressalta.
Conforme destaca Campos, o Brasil é um dos países com a legislação ambiental mais completa. E, apesar de falha em alguns pontos, ela ainda produz resultados favoráveis à preservação do meio ambiente. Montiel explana que a primeira ação que é executada para garantir a conservação das florestas é o plano de prevenção, controle e monitoramento da mata atlântica. Segundo ele, há uma segunda ação: o plano de prevenção controle da Amazônia, lançado em 2004.
De acordo com Montiel, esses dois planos resultaram numa redução da taxa anual de desmatamento em mais de 50%. Em 2004, a área desmatada girava na faixa dos 27 mil km2. A estimativa feita pelo Incra para 2007, é de aproximadamente 9.600 km2. “Para nós é um resultado significativo, porque ele evitou que fossem lançados na atmosfera mais de 400 milhões de toneladas de gases de efeito estufa”, justifica.
Outro grande resultado foi a aprovação pelo Congresso Nacional da Lei da Mata Atlântica, que proíbe qualquer tipo de desmatamento em floresta nativa. “Essa lei foi um grande salto, porque terminantemente proíbe qualquer alteração da mata nativa em estágio avançado de regeneração”, garante o diretor de Proteção Ambiental do Ibama.
Há ainda colaborações de iniciativas privadas espalhadas pelo País A organização não-governamental RMA, por exemplo, reúne mais de 300 entidades filiadas na luta pela conservação do bioma Mata Atlântica. E até existe no Brasil um partido político com essa proposta específica: a preservação do meio ambiente, o ecodesenvolvimento (ou desenvolvimento sustentável), a reciclagem e a recuperação ambiental permanente. Trata-se do Partido Verde. Segundo a presidente do partido no Amazonas, Eliane Ferreira da Silva, preservação ambiental é a ação principal do partido. “E não só no estado do Amazonas, mas com certeza é o foco do partido em todo o território nacional”, assegura.
A historiadora Ana Paula Almeida Marchesotti acredita que a organização da sociedade em prol da defesa do verde irá se fortalecer e através de mobilizações, leis mais rigorosas e, sobretudo, uma maior fiscalização será possível salvar o verde e o planeta. “Sou otimista por natureza, mas também por acreditar que o ser humano é um animal e, como tal, tem um senso de autopreservação. Ele precisa salvar o verde para salvar a si próprio”, admite.
O que ainda falta? A conscientização de cada cidadão brasileiro. A doutora Ana Lúcia Nunes salienta que temas assim não estão totalmente acessíveis para toda a população. “Esses assuntos ficam muito voltados para o nível científico. Infelizmente a gente faz ciência e a nossa ciência fica de certa forma limitada”, lamenta.
Para Campos, tudo é possível através de uma educação ambiental a todos da população e não de maneira fragmentada. O artigo 1.º da Lei de número 9.795 define o que é esse conceito: “Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimento, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade”.
A partir do momento que isso acontecer, o marrom deixará de ser tão constante nas florestas brasileiras e o verde será poupado da extinção.
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