Destaque, Especiais - Escrito por Carlos Henrique Nunes em junho 17, 2008 14:11 - 7 Comentários Mande a matéria para alguém Mande a matéria para alguém

A Bíblia no cárcere

Relato de uma experiência de estudos bíblicos nos pavilhões do Centro de Detenção Provisória (CDP) de Hortolândia

Depois de sete portões de grades altas trancadas com chaves descomunais e uma revista condescendente, descortina-se o mundo dos primeiros dois “raios” do Centro de Detenção Provisória (CDP) de Hortolândia, Região Metropolitana de Campinas. Os raios são alas, uma [...]

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Relato de uma experiência de estudos bíblicos nos pavilhões do Centro de Detenção Provisória (CDP) de Hortolândia


Depois de sete portões de grades altas trancadas com chaves descomunais e uma revista condescendente, descortina-se o mundo dos primeiros dois “raios” do Centro de Detenção Provisória (CDP) de Hortolândia, Região Metropolitana de Campinas. Os raios são alas, uma à esquerda e outra à direita do corredor central do pavilhão, onde se espremem nunca menos de 200 detentos em celas chamadas de “X”. Santana, nome de guerra entre a população, era um dos moradores do Raio-2 X-5. Naquele sábado de novembro do ano passado, pouco depois do meio-dia, ele já aguardava a visita. Surgiu dentre aquela pequena multidão, num ambiente a céu aberto menor que as dimensões oficiais de uma quadra de futsal, mas cuja densidade demográfica faz inveja a qualquer grande centro do país.

– Poxa, meu irmão, você veio – exclamou Santana. É assim. Todo o final de semana, o espanto de receber uma visita é recorrente. Afinal de contas, não são todos os familiares que se sujeitam a uma revista que os expõe ao toque com luva cirúrgica dos agentes penitenciários. Ainda que do mesmo sexo.

– Minha mãe eu nunca deixo vir. Ela sofreria demais e já não tem mais idade – explica.

Algo que a mãe consente e agrava:

– Se eu entrar lá ninguém mais me separa do meu filho – ameaça com tom porreta e fisionomia crispada de baiana legítima.

Santana recosta em uma das paredes. Olha para o nada. No alto dos muros, serpentinas de arames dificultam uma escalada utópica de fuga. Como se não bastasse, no muro de limite externo um agente transita vigilante. Os demais conversam em duplas, caminhando não mais do que contados 60 passos de uma extremidade à outra da quadra de esportes. A linha de fundo é o limite de retorno do vaivém interminável. Uma convenção tácita rigorosamente respeitada. Ao olhar externo, uma angústia. Para os detentos, um déjà vu. Conversam, riem, fumam e caminham. Parecem querer transformar aquilo em um parque em dia de domingo ensolarado ao lado da família. Ali, esforçando-se para ficar alheio à dura realidade, conta como virou presidiário.

Foi uma briga de bar. Acostumado a não levar desaforo para casa, Santana se viu em maus lençóis naquela tardinha de jogo da seleção brasileira na Copa de 2006. Um desafeto lhe tirou as caras. Um disparo de revólver. Posse de drogas. Resultado: Auto de Prisão em Flagrante (APF). Enquadrado por tentativa de homicídio e posse de entorpecentes, viu-se atrás das grades em poucas horas.

– Quando eu parei aqui dentro minha ficha caiu.

Os caminhantes dividem o espaço exíguo com os que mexem os músculos erguendo garrafas pet cheias d’água transformadas em anilhas de fisiculturismo. Outros gastam as horas de sol no crochê de uma touca. E outros preferem o carteado à sombra da marquise. Em dois momentos da manhã, um agente ingressa no raio. No primeiro: abre as celas. Noutro, as fecha. Quem não sai na abertura das celas ou está de castigo ou opta por ficar entrincheirado. Todo raio tem sua “igreja”. Ela funciona em uma das celas. O grupo de crentes é presença certa no meio prisional. Eles são alvo de todo trabalho religioso dos evangélicos em geral. Credenciados junto à administração penitenciária, são fiéis na visitação aos reclusos. Sua receita é simples: Inclui orações e leitura da Bíblia.

Santana era um iniciado no credo adventista do sétimo dia. Não fumava. Abstinha-se de carne de porco mas, por razões óbvias, não era um guardador do Sábado do Senhor! Tinha sua Bíblia. E a ela apegava-se com afinco de colegial em segunda época. Na visita religiosa do final de semana, agitava a população recrutando interessados na pregação. Longe de qualquer garantia de vida e sem nem ao menos o cinto para segurar a calça (pois este e outros objetos ficam retidos junto à portaria do CDP), nem mesmo a Bíblia do religioso escapa de restrições. Livros de capa dura podem ocultar drogas ou armas artesanais em seu interior. Pois é ela, a Palavra de Deus, uma das poucas instituições respeitadas para além do código de convivência da população dos raios.

Os “duque 13” (detentos enquadrados no crime de estupro) não costumam dividir raios e celas com os demais presos. Questão de sobrevivência para quem violou inclusive a ética prisional. Mas homossexuais são socialmente aceitos. Dois deles ocupam uma cela. Têm olhos pintados. Vestem roupas curtas e colantes. Pernas cruzadas, parecem bibelôs de vitrinas. Mantêm a discrição e são respeitados. Celulares são proibidos, mas circulam escondidos. Se descobertos, geram castigo coletivo no raio. Cigarros são moeda de troca. Financiam toda e qualquer necessidade. Nas sacolas de comida trazidas pelos familiares nos finais de semana de visita, eles não podem faltar. Duas lideranças emergem do caos: os interlocutores junto aos agentes e o pastor da “igreja”. Todos cumprem a regra áurea: respeito ao “espaço” alheio.

Uma manhã de pregação

A própria Bíblia se encarrega de definir-se como a “espada do espírito”. Pois aquela manhã nublada de um domingo de novembro foi cenário de uma eficácia maior que a da arma de um Highlander ou “a força” de um Jedi. Especialmente porque rodeado por uma massa carcerária reverente, o pregador fora comissionado para falar-lhes de salvação e liberdade, entre outros temas bíblicos.

De mãos dadas e em círculo, ouviram atentos à apresentação do orador daquela ocasião.

– Minutinho da atenção da população, por gentileza! Nosso irmão veio lá da rua, largando sua família para dar o seu tempo em favor da população aqui do raio. Ele vai falar agora – discursou o preso líder do grupo crente do Raio 1.

Foram quase 45 minutos de pregação. Apelos ao céu e à vida eterna. À liberdade em Jesus Cristo e em sua palavra. Olho no olho, girando para não perder nenhum de vista. Uma audiência silenciosa e atenta. Até os que ficaram trancados nas celas. Coisa de dar inveja a Max Gehringer ou Reinaldo Polito. Em cada rosto, o respeito pela consideração era uma atitude, no mínimo, de reciprocidade.

Terminada a pregação, momento de oração final. Voz erguida ao máximo tentando sobrepujar as mais de 100 que em autêntica Babilônia oravam junto.

– Nosso irmão agora vai visitar cada moradia levando uma palavra – finalizou o líder.

Sentença branda

Nas celas, não existem camas. Nem banheiro privativo. Espécies de gavetas mortuárias cimentadas de menos de dois metros de comprimento por cerca de 1m de altura são as “camas” ocupadas por menos da metade do contingente de cada “x”. Os demais dividem o chão. Cobertores, toalhas, roupas penduradas tentam garantir um mínimo de privacidade em meio à confusão. No pátio, em dia de preparação para a visita, colchões e roupas são espalhados pela quadra. Nas celas, limpeza geral. Fica ruim receber visitas com a casa desarrumada.

– É duro, irmão. Para usar a privada da cela é preciso passar por cima dos presos que dormem no chão – conta o líder espiritual do raio, que naquela semana aguardava o julgamento pelo Tribunal do Júri.

Na semana seguinte, contou o desfecho.

– Os guardas disseram pra mim que o meu advogado fez um grande trabalho. Fui condenado a 14 anos.

Uma sentença branda para quem, segundo ele, perdera a cabeça assassinando a mulher que o traíra com 19 facadas: 12 no peito e sete nas costas.

Romaria ao calvário

Deixar o raio é deixá-los à mercê do destino. Para trás das grades e trancas ficam homens que não se envergonham em dar seus nomes e de familiares para que sejam alvo das orações dos crentes em “liberdade” religiosa. Os agentes também ficam. Por obrigação.

– Então, gostou da cadeia hein – ironiza um deles.

– Pra falar de Jesus não têm lugar e hora, amigo – retruca o missionário em retirada.

Para trás também ficam as centenas de familiares que transitam em romaria, carregados de sacolas com mantimentos, suplicando seja aquela, quem sabe, a última peregrinação do calvário.

Do lado de fora dos portões do complexo penitenciário, vida que segue. Carros superlotam a área de estacionamento. Comerciantes instalados em barracões saciam a fome e a sede dos parentes de lugares mais longínquos.

Santana percorreu, no final daquele novembro de 2007, o mesmo caminho. Um alvará de soltura lhe permitiu a felicidade maior.

– Nem acreditei quando aquele papel chegou na minha mão.

Era o fim temporário (até julgamento, que ainda não aconteceu) de longos 18 meses de cadeia. O abraço da mãe, a oração em família e a visita de um pastor evangelista selaram seu recomeço.

Carlos Henrique Nunes
*Professor da Faculdade de Jornalismo Unasp, campus Engenheiro Coelho

Nota do autor: Esta reportagem foi produzida ao longo de um mês de visitas ao CDP de Hortolândia, durante estágio de evangelismo público de estudantes de Teologia da Faculdade Adventista de Engenheiro Coelho-SP.

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7 Comentários

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José Pires
jun 18, 2008 8:48

Parabéns Professor Carlos…realidade e poesia…sensibilizou o insensibilizável.
José Pires…papai da…Lyane Pires.

MARCOS ANDRÉ FRANCISCO INÁCIO
jul 17, 2008 19:53

IRMÃOS
PRECISAMOS URGENTEMENTE
DE UMA CAPELANIA-PROTESTANTE EM CADA CIDADE ORGANIZADA E ATIVA
>>CAPELANIA(ENCARCERADOS,ENFERMOS,CVV,AA,NA E
TODOS OS OPRIMIDOS DE QUALQUER FORMA,NESSE MUNDO ESCURO)
>>PROTESTANTE
SE NÃO PODEMOS TÊ-LA
TÃO FORTE E ATUANTE EM CADA CIDADE/MUNICÍPIO
COPIEMOS O Q.
HÁ DE MELHOR DA
PASTORAL CARCERÁRIA DA IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA

***TESTEMUNHO

PRECISO,AINDA
VISITAR MEU PRIMO
NO CENTRO DE DETENÇÃO PROVISÓRIA-CDP-
SÃO JOSÉ DO RIO PRETO-SP
CHEGUEI NO LOCAL
OS PORTEIROS DISSERAM:
_SÓ PODE VISITÁ-LO
O PAI E A MÃE E OS IRMÃOS
CONVERSEI COM OS ATENDENTES DO PORTÃO DO CDP

“_COMO FAZER UMA VISITA ESPIRUTUAL
RESPONDERAM
_A PASTORAL VEM AOS SÁBADOS
PERGUNTEI
_QUEM É A PASTORAL
_O PESSOAL DA IGREJA CATÓLICA MAIS ALGUNS DA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS,VEJA BEM,SEM SENTIDO PEJORATIVO.
SEM DELONGAS
FIQUEI SEM VISITAR AINDA MEU PRIMO
UMA MANEIRA DE ACORDO COM
A LEI VIGENTE É ATRAVÉS DA PASTORAL CARCERÁRIA.
DISSE-ME O
SEC. DA ASSOCIAÇÃO PAULISTA CENTRAL-APO,COM SEDE EM S.J.RIO PRETO-SP
-QUE A IASD JÁ TEVE UM GRUPO DE VISITAÇÃO AOS INCARCERADOS NA A.P.O.,INFELIZMENTE, ELE FALOU + DOS FRACASSOS DO GRUPO DO QUE DAS VITÓRIAS-
O GRUPO DE HORTALÂNCIA É FAMOSO
QUERO CONHECÊ-LOS
CADA UM PESSOALMENTE, VOCÊS TODOS
NO MOMENTO PENSO,PARTICULARMENTE
EM PARTICIPAR ATIVAMENTE DA PASTORAL CARCERÁRIA
PARA PELO MENOS APRENDER…???
E INCULCAR
>>>QUE OS NOSSOS SEMINÁRIOS,DIRIGENTES DA IASD, NÓS TEMOS O DEVER DE PELO MENOS TENTAR COM FORÇA E VIGOR,MOSTRAR A IMPORTANCIA E NECESSIDADE DA CAPELANIA-PROTESTANTE OU ALGO SIMILAR.NAS NOSSAS INSTUIÇOES
>>>GRADUAÇÃO COM OS TCC
>>>PÓS-GRADUAÇÃO
>>>>IRMÃOS ILUMINADOS
URGENTEMENTE
JÁ PASSOU DA HORA DE SE TER OU ABANDONAR DE VEZ AS CAPELANIAS,CREIO QUE NINGUÉM QUER ISSO.
CRIEMOS MODELOS DE PASTORAIS-CAPELANIAS-PROTESTANTES.
É ISSO

carlos henrique nunes
jul 17, 2008 20:07

Caro Marcos André,
Mais do que suscitar uma boa leitura, o material por mim escrito, tinha e tem a intenção de provocar reflexões como essas … Sobretudo porque a realidade vista e descrita é essa mesma, crua, sem enfeites! As iniciativas de reavivamento passam por revitalizar essa serviço cristão tão especial… Um abraço!

MARCOS ANDRE FRANCISCO INÁCIO
jul 18, 2008 9:47

Irmão Carlos
Creio q. já nos conhecemos e
o sr. já me ajudou em 1 trabalho sobre o SISAC
E o diretor do dep. onde trabalhas, também
me auxiliou com um tcc
Escrevi outro E-MAIL,PRINCIPALMENTE PARA VC. ATRAVÉS AQUI DESSE ESPAÇO DA ABJ
só Q. dentro do seu comentário MESMO
enviado ao meu hotmail
deu erro na página,possivelmente, da abj
Carlos
o negóciO é
MATERIALIZARMOS A IDÉIA
por em prática
E NA MENTE DOS DIRIGENTES E MEMBROS
Da IASD
sE O SEMINÁRIO COMPRAR A IDÉIA
É UM BOM COMEÇO
ACABO DE CONVERSAR COM O
PR. MIRANDA ROCHA
OBVIAMENTE ELE CONCORDA EM DARMOS
+ ATENÇÃO,
A CAPELANIA-PROTESTANTE
INCLUSIVE ACADEMICAMENTE-COM MAIS ESPAÇO NO CURRÍCULO
ENVOLVER A GRADUAÇÃO E A PÓS-GRAD.

Tales Tomaz
jul 25, 2008 16:11

Marcos,
como você pode perceber, o espaço de comentários no ABJ Notícias é bastante livre. Sequer fazemos qualquer leitura dos comentários antes da postagem. Como você pode perceber, assim que você escreve, ele entra no ar. Fazemos isso porque confiamos que vale mais a pena estimular as pessoas a comentarem do que restringir a expressão delas. De igual forma, esperamos contar com a colaboração de quem escreve para manter este ambiente (virtual) em ordem. Acredito que não há a necessidade de você se expressar com LETRAS MAIÚSCULAS. Na linguagem da internet, isso sugere que você está gritando, embora eu tenha certeza que esse não é o seu caso. Dê preferência também para escrever as frases mantendo a mesma linha,
sem ficar
apertando a tecla ENTER
para pular de linha
entendeu?
Isso torna a página mais comprida e mais lenta para ser carregada. Portanto, acho que podemos cooperar para manter este ambiente ordenado e tranqüilo, para que não haja a necessidade de restrição dos comentários. Um abraço!

patrcia porfirio dos santos
set 24, 2008 20:38

Parabéns pela materia professor ! Meu namorado está preso e toda semana enfrento esse calvário ! É muito importatnte que as pessoas saibam mais sobre esse sub-mundo do sistema carcerario. Muita gente não tem noção do que acontece ! Peço a Deus que tudo isso acabe logo.
Que deus o abençoe.

carlos henrique
set 25, 2008 17:52

Patrícia, foi justamente com esse objetivo que fiz a reportagem! Nós, jornalistas, sempre devemos ter em mente que nossas matérias têm obrigatoriamente que ajudar, melhorar a vida de uma pessoa que seja…

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