Geral, Manchete - Escrito em dezembro 10, 2008 17:21 -
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Economista discute implicações da crise para o País
Antonietta Rodriguez*
A crise financeira que afeta a economia norte americana se alastrou por outros países. Nesse quadro, o Brasil não ficou isento. Para explicar a causa, suas consequências e de que maneira o Brasil sofre com esse problema, o professor Roberto Arruda de Souza Lima, do departamento de Economia, Administração e Sociologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), esclarece alguns pontos. Lima atua na área de economia, com ênfase em macroeconomia, também nas áreas de economia monetária, crédito e eqüinocultura. Em parceria com o professor Carlos José Caetano Bacha, publicou o livro Macroeconomia Teoria e aplicações à economia brasileira. Atualmente trabalha na direção, administração e coordenação do curso de Ciências Econômicas da USP.
Antonietta Rodriguez – Como a atual crise econômica começou?
Roberto Lima – Começou do jeito que começam quase todas as crises. Há alguns anos o cenário que você tinha era o seguinte: alguns países como a China estavam exportando muito e acumulando muitos dólares. A mesma coisa acontecia com os produtores de petróleo. Eles exportam o petróleo e recebem em dólares. Estes diversos países estavam com excesso de dólares por conta das exportações. E o que eles fazem com os dólares? Não podem usar dentro do seu país. Então emprestam para outros países, para outras pessoas, para receberem os juros e não ficarem com o dinheiro parado. O mercado mundial de financiamento ficou com muito dinheiro, com muitos dólares sendo oferecidos para as pessoas. Aí o mercado financeiro, neste aspecto, vai ficar igual a um mercado de batata ou de qualquer outra coisa: se você tem muita oferta o preço cai. O preço do dinheiro é a taxa de juros e esse excesso de dólares colocado no mercado para financiamento fez com que a taxa de juros caísse muito, até um por cento ao ano no mercado mundial. Isso é baratíssimo.
Antonietta – Que conseqüências trouxeram as baixas taxas de juros?
Roberto – Uma delas é que fica fácil de assumir erros. Se eu abro uma empresa e ela não der certo, eu entro no cheque especial, faço um empréstimo no banco. Se os juros estão altos, eu penso três vezes antes de fazer besteira. Os juros baratos fazem com que você assuma riscos mais facilmente. E a economia dos países estava crescendo. Brasil, China, Índia, todo mundo vindo de uma fase positiva de crescimento. É nesse otimismo que alguns setores foram incentivados, como por exemplo, o da construção civil. Aquelas pessoas que não tinham casa aproveitaram os juros baratos para comprá-la. O governo também incentivou isso porque o setor de construção civil é importante, pois gera muito emprego e renda. Um setor-chave das economias. Então, as pessoas começaram a financiar e a comprar casas nos Estados Unidos.
Na hora em que todo mundo começou a comprar casas, se mostrou aquela idéia de oferta e demanda. Não se constroem casas para amanhã, então os que já tinham os imóveis disponíveis elevaram cada vez mais os preços.
Antonietta – Já que eram os bancos que faziam os empréstimos, qual era a visão deles e como agiram diante desse otimismo econômico?
Roberto – Eles financiavam as casas e pegavam como garantia a própria casa. É um bom negócio porque se você não pagar, eu pego a casa de volta e vendo para outro num valor maior do que o empréstimo. Então os bancos não olham mais para o tomador do empréstimo, só para a garantia, porque está valendo cada vez mais. Aí as pessoas começam a abusar. Aparece então a figura dos ninjas. São pessoas que não têm renda, emprego, nem ativos. Por exemplo, um imigrante que não tem emprego formal, não tem ativo nenhum. Eu empresto dinheiro para ele, se ele não pagar, pego a casa e vendo para outro. Então só olho para a garantia, porque imagino que vai estar nessa curva ascendente para sempre.
Outra coisa importante. Normalmente o banco financia olhando para quem vai ser dado o empréstimo e analisa caso a caso. É diferente de quando você vai comprar um eletrodoméstico numa rede varejista. Eles olham estatisticamente porque é uma massa tão grande de clientes que eles dão uma pontuação e dão crédito ou não. Não é a mesma preocupação de quando se vende um imóvel.
Antonietta – O que aconteceu para que os bancos não tomassem essas precauções?
Roberto – Muita gente estava fazendo empréstimo e passou a se fazer um tratamento estatístico de risco. Nem todo mundo vai ter problema para pagar ao mesmo tempo. Essa é a idéia de fazer um tratamento estatístico de risco. Então eles montam uma empresa, um fundo que vai simplesmente receber as contas a receber dessas hipotecas, com um risco que eu estou imaginando estatístico. Com isso é mostrado para o investidor a probabilidade de essas contas serem pagas. Assim, os investidores participam desses fundos, contando com a parcela que vai com certeza ser paga e assim compense os que não vão pagar. Dividem-se os pagadores de acordo com as faixas de risco. Isso é chamado securitização, numa linha bem genérica.
Recapitulando o cenário agora: Não são mais os bancos que financiam, agora são os investidores. Os bancos geram a operação, põem num fundo, os investidores em cima de uma análise estatística oferecem o dinheiro e procuram cada vez mais clientes.
Criam-se vários mecanismos, como por exemplo, você está se formando e não tem dinheiro, mas vai casar. Faz-se um contrato de que nos três primeiros anos você pague juros baratinhos. Mais para frente, quando você estiver mais estável, se recapitula isso com juros mais altos. Com operações desse tipo, começaram a ficar mais relaxados na garantia, na documentação. Por exemplo, quando não olham no Serasa, se você tem comprovante de residência, holerite, etc.
Antonietta - Como esse cenário mudou?
Roberto – Por uma série de motivos da conjuntura, os juros que estavam baixinhos começam a subir de um para cinco por cento num prazo curto. Aqueles que tinham feito operações e vão repactuar não conseguem mais pagar a prestação. Outros que iam comprar a casa, com os juros altos, adiam a compra. Acontecem duas coisas: se desaquece o mercado imobiliário e aumenta a inadimplência (descumprimento). Neste caso, o banco toma a casa para vender para outro, mas não tem mais compradores como antes, então começa a sobrar um monte de casas. Agora todo mundo quer vender a casa, o que faz com que o preço dos imóveis despenque. Assim começa uma bola de neve, porque o banco financiava 60 mil, e se a casa valorizava para 100 mil, sua linha de crédito mudava e o banco emprestava mais 40 mil.
Antonietta - Como esta bola de neve afetou os demais setores da economia?
Roberto – Agora eles usam esse dinheiro para comprar outras coisas, como carros, por exemplo, e isso aquece outros setores. Quando o valor das casas cai, esse dinheiro some e outros setores são afetados, caindo o consumo dos demais setores da economia. Mais do que isso, o americano típico dá muito valor para o imóvel dele e as suas ações e títulos. Sua riqueza está nisso. Quando os valores do imóvel e os valores das ações caem, eles percebem que estão ficando mais pobres e passam automaticamente a consumir menos, pois estão mais preocupados com o futuro. Aposentadoria, faculdade dos filhos. Assim retrai todo o consumo. Uma crise de um setor começa a afetar outros setores.
Antonietta – Você quis dizer que o consumidor adquire só o que é essencial?
Roberto – Isso. Compra menos automóveis, roupas, vai menos ao cinema, e daí por diante. E aquela inadimplência que eles achavam que ia ser baixinha se revela alta. Os investidores começam a sair daqueles fundos e os bancos têm que absorver aquelas dívidas.
Começam a aparecer incertezas no mercado, pois ninguém sabia quando um banco ia ter que arcar com um fundo podre, pois esses fundos têm a contabilidade separada das dos bancos.
Empréstimo depende de confiança, então um pára de emprestar para o outro. Esse é o pior dos cenários. Banco vive de confiança. Aí vêm as políticas de governo para que os bancos voltem a emprestar.
Os Estados Unidos começaram a repassar dinheiro para os bancos a uma taxa e juros mais baratos e para voltar a ter mais empréstimo, baixaram a taxa de juros. Mas a hora que baixou a taxa de juros, pessoas que tinham dinheiro nos Estados Unidos acham que esses juros não compensam e aplicam em outro lugar, como na Alemanha, por exemplo, pois hoje o dinheiro passa rápido de um país para outro. Muita gente quer se desfazer do dólar porque o ele não está rendendo nada. Se todo mundo quer vender dólar para comprar yen, real ou libra, o dólar perde valor.
Isso tem conseqüências no mundo real, especialmente nos alimentos, nas commodities, no petróleo. Se o Brasil vende soja para China, a venda é feita em dólar. Se o dólar vale menos, os preços ficam mais altos. Então começa a ter inflação, o medo de todos os países. Então o governo entra controlando a inflação, isto é, restringe o consumo, juros mais altos, tabelamento de preços. Isso vale para qualquer país, Brasil, Venezuela, Alemanha.
Antonietta – O Brasil corre risco de inflação?
Roberto – A inflação já veio por um lapso e os preços começaram a ficar mais altos. Os alimentos já subiram 6%, principalmente a carne. O que muda é que alguns países sofrem mais e outros menos. O Brasil sofre por tabela nessa retração da economia dos Estados Unidos. Começam a comprar menos do mundo todo e o Brasil pára de vender para os Estados Unidos. A França, por exemplo, cancelou o Grande Premio de Formula 1 para evitar gastos. Estão todos se segurando. Estes gastos incluem também produtos que o Brasil vende. Assim, as empresas brasileiras começam a sentir. Isso causa uma instabilidade. Como você pode ver o dólar subindo e descendo, isso causa prejuízos para as empresas.
Antonietta - No Brasil, que setores são os mais afetados com essa crise?
Roberto – Vou dar um chute porque estamos dentro do furacão e não temos a visão. Não me cobre depois (risos). Mas alguns setores já estão reclamando. Esta desconfiança afeta as linhas de crédito. Isso afeta muito a parte imobiliária, que estava tendo muitos lançamentos e vai dar uma segurada. Eu particularmente tenho muito medo do setor de automóvel. Estavam vendendo como estão sendo as hipotecas americanas. Qualquer um comprava um carro. Até eu troquei de carro. 72 meses em um carro usado. Daqui a três anos seu carro vale pouco e sua dívida é grande, um bom incentivo para não pagar. Montadoras devem sofrer bastante, a construção civil também. Setores que precisam de bastante dinheiro, que dizemos ser alavancado, vão sofrer bastante, como a agricultura. Já está faltando dinheiro para este setor. Ela precisa de dinheiro para plantar e assim poder colher lá na frente. Não são só os pequenos, mas grandes empresas, como usinas de açúcar e álcool estão com dificuldade de conseguir crédito. Está faltando dinheiro para todo mundo, os bancos estão com medo de emprestar. Os setores mais alavancados vão ser os que vão sentir mais.
Antonietta – A influência dos governos mundiais traz alguma possibilidade de solução para esta crise ou é só um paliativo?
Roberto – Acho que tem. Acho que não é de curto prazo, vai levar um tempinho.
Antonietta - Quanto tempo?
Roberto – Não sei dizer. Eu acho que a chance de acontecer algo rápido é muito difícil. O ano que vem ainda vai ser muito complicado. Os governos acharam que tinham que dar dinheiro para os bancos emprestarem, mas os bancos pegavam esse dinheiro e compravam títulos do governo, continuavam com medo e não emprestavam o dinheiro e as empresas que precisavam continuavam precisando. Então, os governos mudaram de estratégia, capitalizaram os bancos comprando ações para mostrar ao mercado que o banco está voltando à forma de recuperar a credibilidade.
Perder a confiança é fácil, ganhar confiança é demorado. Tem muito de confiança nisso, essa é a parte mais complicada
Antonietta – O sistema econômico no Brasil está se defendendo de alguma forma?
Roberto – Está se movimentando. Acho que ainda um pouco devagar, pelo conflito de interesses, cada um pensando de uma maneira, mas de um modo geral no caminho correto.
Diferente do discurso oficial do presidente Lula, que está falando uma coisa e o governo fazendo outra, o que o governo faz é mais coerente. O que o Lula fala é da boca para fora, como quando disse que iria voltar atrás na diminuição no depósito compulsório (parte do depósito que o banco é obrigado a deixar com o Banco Central), porque os bancos não estão emprestando. Não vai voltar atrás. Na verdade, tem que dar mais incentivos para os bancos emprestarem às empresas ao invés de comprar títulos públicos.
Vamos por um caminho mais adequado, de olho em quem está sofrendo, mas não somos tão ricos como os Estados Unidos. Nosso poder de fogo é menor.
Antonietta – Que situação enfrentará o consumidor final no Brasil?
Roberto – Quem tem taxa repactuada vai ter problemas sérios. Pode ser que nem consiga refinanciar. Com essa redução do consumo no mundo as empresas são afetadas, incluindo as brasileiras, e o medo do desemprego gera uma diminuição do consumo.
Antonietta – O aumento do desemprego vai ser uma realidade?
Roberto – Deve aumentar. Não acredito que vai ser num nível catastrófico, como a crise de 1929 nos Estados Unidos.
Antonietta – Fazendo um paralelo entre a crise de 1929 e a atual, quais as diferenças nas conseqüências delas?
Roberto – Temos várias diferenças, a primeira é que aprendemos. As lições duras de 29 estão aí. É questão de ver o que deu certo e o que deu errado em 29 e nas outras crises menores. Hoje a gente tem mais conhecimento, temos mais instrumentos. É um mundo diferente daquele de 1929. Os governos já estão conversando. Coisa inimaginável um tempo atrás era ter uma política de Estados Unidos, Japão e Europa baixando juros ao mesmo tempo.
Esse aprendizado ajuda a suavizar o problema. Por isso acho que não vai ser tão profundo como foi. Mas que o problema existe, existe. Fazendo um paralelo com a saúde: aparece um vírus novo e alguém diz – vai ser como foi a gripe espanhola. Não, vai ser diferente. Temos novos medicamentos.
Antonietta - O que vai ser diferente?
Roberto – Não sei dizer exatamente, mas temos mais ferramentas para isso, podemos dar um tratamento melhor, ter menos dor. Já sabemos o que fazer. Sabemos que os bancos precisam de capitalização, por exemplo, mas isso é sujeito a erro. O governo americano teve que tomar a decisão de deixar os bancos quebrarem ou não. Deixou quebrar uns e outros não. Hoje vemos que foi um erro, porque gerou uma crise de desconfiança. Se você me perguntasse na época, eu falaria para deixar quebrar. Temos que fazer uma sintonia fina das coisas. Não sei exatamente onde vamos chegar, mas temos mais mentes pensantes e mais conhecimento para resolver os problemas.
Antonietta – Há solução?
Roberto – Não sou tão catastrófico, acho que vamos ter problemas, mas à medida que forem apertando, as pessoas vão achando as soluções e resolvendo.
*Entrevista realizada como requisito para a matéria de Técnicas de Reportagem, Entrevista e Pesquisa Jornalística II, do segundo ano de Jornalismo.
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2 Comentários
ilkiara
Renata Melo
Porque estas crises afetaram e afetam demais paises do mundo ?
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