Ruben Holdorf - Escrito em dezembro 15, 2008 8:23 -
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Diploma: questão de caráter
Duas profissões chamaram a atenção do Brasil nas últimas semanas: Direito e Medicina. No Espírito Santo, a Polícia Federal prendeu desembargadores, juízes e advogados, acusados da venda de sentenças – como era de se esperar, os magistrados já saíram da prisão. Antigamente se tratava de uma prática baseada no compadrio. Hoje se transformou em negócio. Em Londrina, no Norte do Paraná, graduandos de Medicina da Universidade Estadual (UEL) resolveram promover uma arruaça dentro do pronto-socorro do hospital universitário, soltando fogos, agredindo verbalmente pacientes e funcionários. Tudo em nome das comemorações pela conclusão da residência e do curso.
O envolvimento e prisão de magistrados, promotores e demais profissionais das leis não é mais novidade no País da impunidade. Eles nunca duram muito tempo atrás das grades. E quando permanecem um pouco mais que o razoável, recebem todo o tipo de privilégio. Seria inédito se houvesse punição exemplar, inclusive com a destituição do direito ao exercício profissional, mesmo depois de cumprida a sentença. Mas no reino dos intérpretes da lei, só pichador pega 52 dias de cana. Afinal, o Brasil é o paraíso dos advogados e isso não tem a menor possibilidade de se tornar uma praxe. Eles sequer são conduzidos aos tribunais. Em relação aos “médicos”, apesar de provas contundentes, também não vão para a cadeia, mesmo que esquartejem seus pacientes. A Justiça pode prender o doutor Jekyll, mas nunca colocará no banco dos réus o senhor Hyde.
Anualmente, a OAB realiza um provão para autorizar o direito ao exercício profissional dos recém-formados, candidatos a advogados. Uma minoria consegue alcançar a nota mínima para iniciar a carreira advocatícia. Aqueles desembargadores, juízes e advogados espírito-santenses e capixabas, acrescentados a outros milhares de pretensos defensores da lei, também culpados e condenados nas diversas instâncias, passaram na prova da OAB. Não obstante seus esforços de conhecimento jurídico, eles reprovaram no teste de caráter. Há duas décadas, a construtora Camargo Corrêa estampou um anúncio abrindo vagas para engenheiros civis, com a condição de que não apresentassem diploma de certa universidade. Seria interessante se a sociedade boicotasse os graduados da UEL, já que, segundo os arruaceiros, a baderna de final de curso faz parte da tradição. E que desaforada a oradora da turma ao defender os colegas de bar!
A despeito do deslumbramento de advogados sem escrúpulos pelo mundo do crime organizado e da falta de ética, humanidade e caráter de egressos da Medicina, a malfadada Justiça brasileira questiona a legalidade da obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão. Se os cursos de Jornalismo revelam problemas de qualidade, encontrando-se desfocados da realidade de mercado, o que dizer a respeito de Direito e Medicina? Seus diplomas não deveriam ser questionados?
Não há dúvida que alguns advogados, médicos, engenheiros, psicólogos, historiadores e até religiosos produzam bons textos, sejam cidadãos de notável reconhecimento público e de conduta moral ilibada. Suas opiniões podem ser aceitas como artigos, face os profundos conhecimentos revelados nas áreas em que atuam, nos moldes das redações dissertativas, semelhante àquelas do ensino médio. Entretanto, isso não lhes dá o direito a requererem a prerrogativa ao exercício do jornalismo e muito menos o de solicitar o fim da obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para serem repórteres e editores. Se essa atitude continuar, então se levanta aqui, a partir de hoje, a bandeira contra a obrigatoriedade do diploma para o exercício da advocacia, cujos profissionais são os que mais se interessam pela desorganização da classe que vigia suas ações e cujo comportamento é incontestável.
Gostem ou não, graças à constante atuação do jornalismo na sociedade brasileira, o País se libertou das amarras da opressão. Pode ser que daqui a alguns anos, devido à má gestão das empresas de comunicação, a tirania volte a ocupar a primazia do poder. Por trás dessa batalha se escondem os verdadeiros mandantes do assassinato do jornalismo, os patrões, os empresários, proprietários das grandes corporações jornalísticas brasileiras, interessados em controlar pelo salário e privilégio as ações dos repórteres nas redações e, assim, conservar as relações com os governantes da pior estirpe. Nenhum deles se preocupa com a situação social, econômica, educacional, de infra-estrutura, de segurança. O que eles desejam são os polpudos anúncios da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, de editais públicos. Eles farejam o dinheiro da corrupção. São lacaios. Advogados, engenheiros, médicos e outros profissionais não compreendem o jogo de forças e interesses subterrâneos em detonar a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Fracassados em suas áreas, eles se deslumbraram com o jornalismo, pretendendo entrar pela porta dos fundos nas redações.
A alegação de que todos têm o direito à liberdade de expressão e, portanto, poderiam, em tese, exercer o jornalismo, distorce o próprio princípio de liberdade. De acordo com a Constituição, todos têm direito ao livre pensamento e devem recorrer à imprensa. Todavia, quem trabalha com os dados e os apura necessita de uma formação específica. Bons argumentadores redigem artigos com maestria. Contudo, estruturar uma reportagem requer técnica e perspicácia. E isso não se aprende nos cursos de Direito, Engenharia, Medicina, História, Letras, Arquitetura ou Relações Públicas. Acima de qualquer técnica e capacidade persuasiva, clareza de idéias, disposição em ouvir todas as vozes possíveis, cedendo-lhes espaço, sobressai-se o caráter.
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3 Comentários
Meu caro Rômulo, um juiz de Londrina determinou na quarta-feira (10) que a Universidade Estadual de Londrina (UEL) realize a formatura dos 14 estudantes de Medicina. Segundo o advogado dos graduandos, Alexandre Bastos, havia mais de 40 residentes no local da arruaça. “A portaria é genérica, sem mostrar o que cada um dos acusados fez, e não se permite processar sem ter a segurança jurídica”, argumenta. Em suma, se a baderna for coletiva, ninguém vai para a cadeia. O advogado e o juiz que deferiu a solicitação acabam de instituir o direito ao vandalismo em matilha. O corporativismo dessas classes é muito forte e se demonstra acima das leis. A aplicabilidade das leis cabe apenas aos mortais cidadãos, mais uma vez desesperançados com essa absurda decisão unilateral da inJustiça brasileira.
Ruben, não bastasse a decisão no mínimo confusa e ainda temos que engulir que eles se intitulem doutores a partir do próximo ano. Isso sem contar os “doutores” em leis…
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Creio que o maior problema não seja a inserção de profissionais liberais, que inclusive já atuam como articulistas, de fato. Mas, sim, o empobrecimento da imprensa, principalmente, no interior. Lugares onde o coronelismo ainda reina, terão agora uma cobertura mais deficitária e arrogante. Imagine as emissoras de rádio, ditas, comunitárias, agregando cada vez mais pessoas que falam “bem” e não se preocupam responsabilidade com o que é difundido. Jornais que já capengavam, passarão a ter cada vez mais “redatores” e a linha editorial que normalmente já é ditado pelo patrão, agora deverá se transformar numa coerção mais explícita ainda. “Se você não quiser escrever (gravar, ou publicar) alguém vai fazê-lo por você”, podem dizer os antigos e possíveis futuros barões da notícia. Digo isso porque vendo a realidade da imprensa interiorana na região do Vale do Paraíba, é o que mais acontece… Conta-se em menos da metade dos dedos (só das mãos ainda!) os veículos que têm compromisso responsável com o público. Falta de mão de obra preparada, tanto no rádio, como no impresso e a falta de fiscalização nesse setor é o ponto mais pungente.
Ao abrir as porteiras, a situação vai piorar aos galopes!